Variedades
Perfume de Mulher

Otto Marques da Silva
(Coordenador Geral do
Centro de Referências FASTER)


Liberado no ano de 1983 para as telas do mundo todo, Perfume de Mulher é um filme que conta com uma soberba interpretação de Al Pacino no papel de Frank Slade, um tenente-coronel reformado, amargurado, solitário e cego.

Todos aqueles que assistiram esse famoso filme, que garantiu diversos Oscars da Academia, hão-de se lembrar, dentre muitas, da cena do tango dançado com extrema competência e virtuosismo por Al Pacino com Gabrielle Anwar. É uma cena que, sem favor algum, foi transformada num momento mágico do cinema, na qual você “participa” boquiaberto, quase sem respirar, e com vontade de aplaudir ao seu final.



No entanto, esse filme faz-nos raciocinar muito mais longe e com mais propriedade em nossas áreas de trabalho, não importa nosso ângulo de atuação, no campo da reabilitação de pessoas com deficiência. Obriga-nos a pensar na importância que todos podemos ter na vida das pessoas com deficiência, que podem vir a interagir conosco nos mais variados e imprevisíveis ambientes formais ou informais. 

Mesmo que trabalhemos por anos a fio em seu atendimento, em nossa capacidade profissional, por vezes fazemos uma idéia sutilmente preconceituosa de que pessoas com deficiência devem ser sempre adequadas em tudo, como se elas tivessem uma dívida a pagar, ou como se estivéssemos fazendo um certo favor em aceitá-las em “nosso meio”.

Quase sempre imaginamos que elas precisam também ser competentes em tudo, para serem bem aceitas (como se nós, que não temos deficiências, também o fôssemos). Nunca passa pela nossa cabeça que, como seres humanos que são, elas podem ser irascíveis, inconvenientes, falantes, inconseqüentes, desaforadas ou "liberadas" - como o tenente-coronel Frank Slade do filme - ou como nós mesmos também podemos ser. 

O filme “Perfume de Mulher” faz-nos pensar muito em como nossa sociedade está mal preparada para garantir, não tanto a presença passiva e submissa, mas a “presença participativa” das pessoas consideradas “diferentes”.

Mais do que isso, faz-nos pensar no verdadeiro e por vezes pouco notado desafio enfrentado pelas equipes de nossos recursos de educação, de orientação ou de reabilitação, para terem seus profissionais preparados para prover serviços de que a população de pessoas com deficiência pode objetivamente precisar.

Convenhamos: Esses serviços extrapolam em muito um bom condicionamento físico, um simples emprego, ou então, o uso de uma bengala longa, uma forma civilizada de comer ou de se vestir, como no caso mostrado de sobejo nesse inspirador filme.

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