Variedades

Pessoas com Deficiência nas Artes Românicas (*)

Antes da própria existência da assim chamada arte ou arquitetura românica, nos variados países da Europa, Ásia Menor e Norte da África, em Roma podemos observar, na coluna de Trajano, uma cena que retrata o atendimento de soldados feridos em batalha. A coluna de Trajano mostra-nos, como num documentário em série, em sua linha ascensional, a grande saga das legiões romanas na guerra levada a cabo pelo do Imperador Trajano contra os Dácios.

A arquitetura românica propriamente dita floresceu entre os séculos V e XII de nossa Era, devido à forte influência de Roma por muitos séculos. Sempre foi muito popular, por exemplo, na Europa, em todos os países onde o latim ou línguas dele derivadas predominavam. Em diversas igrejas construídas, segundo o estilo da arquitetura românica, dentre motivos múltiplos de fundo religioso ou secular, poderemos encontrar, principalmente ao norte da Espanha e da França, algumas ilustrações que retratam pessoas com deficiências físicas.

Dentre essas ilustrações, gravadas em pedra, principalmente nas assim chamadas "pedras angulares", que davam o toque de firmeza e de acabamento aos famosos e semi-circulares arcos romanos ou nos capitéis de colunas, podemos ressaltar alguns exemplos:

a) Na Abadia das Damas de Saintes, na França, consagrada em 1047 (fica na região de Poitou-Charentes), podemos observar um capitel de coluna que mostra um deficiente físico com um pé de madeira, portando uma marreta, ao lado de outro homem - provavelmente pedreiro - mostrando um exemplo louvável de trabalho para aquela época.

b) A 24 quilometros de Pamplona (Espanha) existe uma igreja navarra conhecida como San Pedro Ad Vincula, em Echano. Se observarmos com cuidado os diversos arcos dessa igreja, iniciando da porta principal, pelo lado esquerdo, poderemos notar que nos arcos 1, 3 e 9 estão representados rústicos músicos com o pé esquerdo amputado ou com defeito físico. Segundo observação do grande analista espanhol, Andrés Ortega Alonso, "os defeitos físicos se consideram sempre como reflexo das carências espirituais e a música profana era por excelência um campo relacionado com o marginal e o imperfeito".
Se interessado, acesse o site da Internet, em que todas as suas análises relacionadas ao tema aparecem:

http://personal.telefonica.terra.es/web/el-romanico-navarro/JANO_EN_ECHANO/indexado.htm

A Catedral de Notre Dame de LESCAR


Não podemos deixar de fazer menção a obras de arte existentes nas três naves da Catedral de Notre Dame de Lescar, de estilo galo-românico. Lescar é uma cidadezinha existente nos contrafortes dos Pirineus (perto de Pau), nos Pirineus Atlânticos. Ela já foi muito importante em séculos passados, até sua destruição pelos sarracenos em plena Idade Média. Devidamente reocupada por antigos habitantes, chegou a ser a capital de Bearn e o ponto preferido de repouso de vários reis de Navarra. Curiosamente, os turistas dos dias atuais, que a têm visitado, descobriram que é a cidade em que o sete prevalece: sete portões, sete bosques, sete vinhas, sete moinhos, sete igrejas e sete fontes. Lescar tem sido considerada há séculos como ponto de apoio no famoso Caminho de Santiago de Compostela, que fica a noroeste da Espanha, na Galícia.


A determinação para a construção da Catedral de Notre Dame de Lescar foi do Bispo Guido de Lons, no ano de 1042, em estilo galo-românico, com três naves baixas. Dentro dela é possível encontrar atualmente um órgão muito grande para o tamanho da igreja, lápides sepulcrais de reis de Navarra em seu piso, colunas com capitéis que nos mostram temas da natureza e um famoso mosaico de pequenas pedras coloridas, como pavimento de boa parte da ábside da igreja, que é sua atração maior.

O comprido mosaico mostra cenas de caça. Ao lado esquerdo aparecem duas leoas atacando uma gazela e um caçador às voltas com um javali. À direita aparece um lobo perseguindo um burro que parece estar muito cansado e à frente deste, um lépido arqueiro preparando sua flecha para um alvo fora da cena. O arqueiro, correndo em largas passadas, é amputado do pé direito e usa uma estranha prótese que, segundo a guia turística da catedral, era muito barata e comum em soldados feridos e dispensados, por indicação dos médicos do Al-Andaluz (período de ocupação sarracena na Espanha, que cobriu praticamente toda a Idade Média).


Na ponta do mosaico pode-se ainda ler com certa dificuldade a identificação do autor dessa ilustração profana dentro de uma catedral católica: Dominus Guido Episcopus Lascurensis Hoc Fieri Fecit Pavimentum (Dom Guido Bispo de Lescar Mandou Fazer Este Pavimento). Segundo consta de relatos históricos, o referido bispo cruzou muitas vezes os Pirineus na direção da Espanha, ao lado dos exércitos do seu rei, para combater os sarracenos, mas gostava, sem dúvida, de caçadas.


(*) Otto Marques da Silva
Consultor em Reabilitação Profissional
Março de 2006


página (variedades)...para cima