Variedades

Os Mais Pobres dos Pobres do Mundo
Por James D. Wolfensohn,
Ex-Presidente do Banco Mundial

Quatrocentos milhões de portadores de deficiência vivem nos países em desenvolvimento. Com freqüência demais, suas vidas caminham de mãos dadas com a pobreza, o isolamento e o desespero. Enquanto o mundo marca o Dia Internacional das Pessoas Deficientes, precisamos cuidar daqueles que não são ouvidos em suas sociedades, cujas deficiências muitas vezes são usadas contra eles para impedi-los de ir à escola, arranjar emprego ou se mostrar em suas próprias vizinhanças. Uma mulher cega do Leste europeu, com um tom de desesperança, resume desta maneira a dura realidade de viver com uma deficiência: "Dependemos de todo mundo; ninguém nos quer. Somos como lixo, do qual todo mundo quer se livrar". Como se esse isolamento não fosse injurioso o bastante, pesquisas mostram que as pessoas incapacitadas também estão mais sujeitas do que as outras a viver na pobreza opressiva. Mais de 1,3bilhão de pessoas no mundo lutam para sobreviver com menos de US$ 1 por dia, e os deficientes em seus países vivem na parte mais baixa dessa pirâmide.

A deficiência não é rara. Pode afetar entre 10% e 20% da população de um país, uma porcentagem que, estima-se, aumentará, por causa da falta de alimentação e cuidados com a saúde no início da vida, crescentes populações idosas e conflitos civis violentos.

A subnutrição e o consumo de água ruim podem privar as pessoas da visão. Terremotos e outros desastres naturais deixam sua marca. HIV e aids, sarampo, poliomielite, acidentes de trânsito e no trabalho, explosivos descartados, mães que abusam de drogas durante a gravidez - tudo pode arruinar a audição das pessoas e seus sentidos intelectuais e emocionais e destruir membros e corpos, relegando milhões às margens da sociedade. Os resultados podem ser devastadores, para os indivíduos e para as economias nacionais.

A menos que as pessoas deficientes sejam incluídas na corrente principal do desenvolvimento, será impossível reduzir a pobreza pela metade até 2015 ou dar a cada menina e menino, no mesmo prazo, a chance de receber educação primária - objetivos assumidos por mais de 180 líderes mundiais na Cúpula do Milênio, da ONU, em 2000.

Se desenvolvimento significa trazer as pessoas excluídas para a sociedade, então os portadores de deficiências têm seu lugar nas escolas, parlamentos, empregos, ônibus, teatros e todo o resto.

Deveríamos admitir que a deficiência é característica permanente de todas as economias, ricas e pobres. Algo importante a ter em mente: a maioria das deficiências é evitável; poucas pessoas entre as 400 milhões que vivem nessas condições nasceram assim. A deficiência precisa ser incluída na corrente do desenvolvimento por uma aliança dinâmica entre o sistema da ONU, governos, agências como o Banco Mundial, organizações não-governamentais, o setor privado e outros grupos no mundo todo.

Por exemplo, por meio de projetos de infra-estrutura e apoio político a países que tentam reduzir a pobreza e impulsionar o crescimento econômico, o Banco Mundial tem dado voz às preocupações dos portadores de deficiências. Embora não haja recursos para aplicar padrões ocidentais para a deficiência na maioria dos países em desenvolvimento, os países pobres ainda têm opções para melhorar o acesso aos locais públicos. Não é uma situação de "tudo ou nada". Doadores e agências de desenvolvimento financiam projetos substanciais de infraestrutura em países em desenvolvimento, como escolas e hospitais, ruas e passarelas e sistemas de transporte e energia. Eles deveriam encorajar características de projeto que facilitassem o acesso para todos os que têm limitações de mobilidade, incluindo deficientes físicos, grávidas, pessoas carregando bagagem, idosos e outros. Sem padrões de infra-estrutura e a vigilância desses padrões, ambientes inacessíveis são recriados ou mantidos. Um exemplo: nos grandes esforços de reconstrução em Honduras depois do furacão Mitch, nenhum doador estrangeiro estipulou que fossem aplicados códigos de acessibilidade, embora isso exigisse pouco ou nenhum custo adicional. Como resultado, cidades inteiras, incluindo escolas, foram reconstruídas com barreiras a pessoas deficientes. Encorajar padrões de projeto apropriados é essencial para reduzir e eventualmente eliminar a pobreza nos países em desenvolvimento.

Além disso, precisamos de dados e pesquisas mais exatos e de comunicação melhor, para que as pessoas com deficiência saibam quais recursos estão disponíveis para ajudá-las a conseguir trabalho ou educação. Tratar da deficiência é parte significativa da redução da pobreza.

Resgatar as pessoas incapacitadas dos becos e vielas secundárias da sociedade e habilitá-las a prosperar no agitado centro da vida nacional fará muito para melhorar as vidas de muitos entre os mais pobres dos pobres do mundo.

(Texto publicado em O Estado de S. Paulo, no dia 4 de dezembro de 2002)


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